APRENDENDO A PINTAR
Parte 1

por PAULO CHEREM - www.paulo.cherem.nom.br

A técnica apresentada a seguir poderá ser usada nos mais diversos temas inclusive retratos, pois, seu objetivo é demonstrar a evolução gradual do desenho de objetos, partindo de figuras geométricas simples e paulatinamente acrescentando os detalhes e, a técnica da transição de tonalidade do claro-escuro na fase de pintura. Essa técnica é responsável pela adição de tridimensionalidade ao trabalho, criando a sensação de realismo.

 
O material necessário para o aprendizado de pintura de um botão de rosa.
  • A referência (foto ou natural);
  • A tela ou pedaço de lona preparado para pintura;
  • Um pincel n. 2 redondo de cerda;
  • Seis pincéis do formato redondo ou língua de gato n. 4 ou n. 6;
  • Tubos de tinta a óleo nas cores:
    • preto;
    • azul cerúleo;
    • terra de sombra natural;
    • terra de siena queimada;
    • vermelho de cádmio claro;
    • amarelo de cádmio médio;
    • amarelo de cádmio claro;
    • branco de titânio.
  • Um godê;
  • Um pouco de terebintina que será colocada no godê.
  • Um pedaço de pano limpo de algodão para limpeza dos pincéis.
A referência e a tela deverão ficar na posição vertical e em frente ao pintor.
Inicie colocando um pouco da tinta "terra de sombra natural" na paleta conforme mostrado na parte inferior da imagem.
O primeiro passo é umedecer o pincel redondo, de cerda e de n. 2, em terebintina. A seguir dissolva um pouco da tinta "terra de sombra natural" usando o pincel umedecido. A tinta deverá ficar com um aspecto líquido. Trace uma linha que representa o eixo do objeto. Nesse caso temos uma linha imaginária que passa pelo centro da rosa (referência) e desce pelo caule. Veja o detalhe:
Agora você deverá envelopar o objeto, ou seja, traçar uma figura geométrica de "n" lados, de maneira que a figura possa envolver o objeto a ser pintado. No caso do botão de rosa, temos como figura geométrica o quadrado. Essa figura geométrica deverá estar perfeitamente proporcional com a forma da referência. Caso contrário o desenho não representará o objeto que será pintado. Veja o detalhe:
Utilizando-se de traços curtos (pequenos segmentos de reta), desenhe o objeto dentro do envelope definido pela figura geométrica. Seja rigoroso no desenho de maneira a obter uma imagem fiel da referência. Algumas partes do objeto podem ser dispensadas do envelope inicial, visando obter-se uma figura geométrica mais simples. Quando do aprimoramento do desenho aquelas partes deixadas de fora serão incluídas. Veja o detalhe:
Na imagem ao lado vemos em detalhe a referência e o desenho. O desenho poderia ter sido feito com carvão e/ou lápis-carvão. Essa técnica será abordada em outra oportunidade. Caso necessite corrigir alguma linha, utilize um pedaço do pano de algodão umedecido com terebintina.
Agora vamos preparar a paleta com as cores que serão usadas para a pintura. Acrescentamos as cores "vermelho de cádmio claro", "terra de siena queimada" e "azul cerúleo". Essa última cor via de regra é comercializada em tonalidades diversas, o que de certa maneira dificulta saber de antemão o resultado de uma mistura. Nesses casos um teste prévio de mistura deverá ser feito. Veja o detalhe as cores distribuidas na paleta. Há uma ordem padrão utilizada pelos grandes pintores desde o século XVI. Em outra lição mostraremos a distribuição das cores sobre a paleta.
Você necessitará de três pincéis de cerda (pelo de porco). Um pincel para a tonalidade escura, outro para a tonalidade média e um terceiro para a tonalidade clara. Use pincéis chatos de ponta arredondada que também são conhecidos como "língua de gato". Caso não os consiga, use os pincéis de formato redondo.
Decidi substituir o "azul cerúleo" selecionado anteriormente, pelo "azul cerúleo" da Tintas Águia. É uma tonalidade mais clara e além disso estava disponível em meu estoque. Caso você não tenha, clareie a tonalidade que tiver pela adição de "branco de titânio". Veja o detalhe:
Nesse passo você deverá preparar as três tonalidade básicas. As misturas são as seguintes:
  • Tom escuro;
    • vermelho de cádmio + siena queimada + sombra natural
  • Tom médio;
    • vermelho de cádmio + siena queimada
  • Tom claro;
    • vermelho de cádmio + siena queimada (pouquíssimo) + azul cerúleo
Para cada tonalidade use somente um dos pincéis que deverá estar previamente umedecido com terebintina. Use o pano de algodão para retirar o excesso. As porções de tinta deverão ficar com a consistência de maionese.
Veja os detalhes:
Nesse passo iniciaremos a pintura propriamente dita. Pegue um dos pincéis, tome uma quantidade da tonalidade escura e preencha a desenho nos locais apropriados conforme a referência (foto da flor). Coloque sempre uma boa quantidade de tinta, pois, em outra etapa você trabalhará com os pincéis quase sem ela. Veja o detalhe:
Pegue um outro pincel, tome a tonalidade média e preencha o desenho nos locais apropriados conforme a referência (foto da flor). Coloque sempre uma boa quantidade de tinta, pois, em outra etapa você trabalhará com os pincéis quase sem ela. Veja o detalhe:
Pegue o terceiro pincel, tome a tonalidade clara e preencha o desenho nos locais apropriados conforme a referência (foto da flor). Coloque sempre uma boa quantidade de tinta, pois, em outra etapa você trabalhará com os pincéis quase sem ela. Observe atentamente que essa tonalidade clara foi aplicada em alguns locais por sobre a tonalidade média. Essa técnica é utilizada quando se deseja clarear o tom médio de maneira a se obter uma tonalidade intermediária entre o tom médio e o tom claro. Com a mesma finalidade pode-se aplicar o tom médio sobre o tom escuro. Isso já é uma etapa de aprimoramento da pintura. Veja o detalhe:
A partir desse momento será iniciado o processo de trabalhar na transição entre as tonalidades. Será necessário leveza no manuseio dos pincéis, ou seja, deve-se trabalhar a tinta sem empurrá-la para dentro da tinta que está por baixo. Observe a parte superior esquerda do botão de rosa. A tonalidade escura foi passada por sobre parte da tonalidade média usando-se o pincel para o tom escuro. Em seguida, usando-se o pincel para o tom médio, aplica-se um pouco dessa tonalidade por sobre a zona já mesclada. Repita essa operação outras vezes até obter uma transição suave e gradual. É trabalhoso e exige prática, porém o resultado final é trabalho de mestre.
Observe na figura ao lado as transições já em estágio mais avançado. O pincel em uso é aquele para a tonalidade clara. Apoie levemente o dedo mínimo para um melhor trabalho de mistura das tonalidades.
Use o pano de algodão para retirar o excesso de tinta dos pincéis ou descontaminá-los durante a etapa de elaboração da transição de tonalidades. No caso presente eu usei toalha de papel do tipo utilizado em culinária. Funciona bem.
Na imagem ao lado vê-se o prosseguimento do trabalho de transição de tonalidades. É esse trabalho que dá a sensação visual de tridimensionalidade na pintura, pois, conforme Leonardo da Vinci, "pintura é a arte de expressar um mundo tridimensional sobre uma superfície bidimensional".
É esse trabalho meticuloso que agrega volume ao objeto quase sendo possível pegá-lo.
Após concluir a pintura, tome um pincel de cerda do tipo chato e de número 4 (pincel tigre da série 811). Umedeça em terebintina e esfregue nas bordas da pintura. Essa operação é para corrigir eventuais falhas de formato e melhorar o acabamento do trabalho. Mantenha o pincel limpo para não sujar outras partes da pintura.
Ao final do trabalho de transição, o objeto deverá ter o mesmo volume da referência, ou seja, a passagem da sombra para a luz deverá ter a aparência da realidade.
Em arte devemos, mas não em todos os casos, ampliar a escala tonal. Isso significa que devemos fazer a tonalidade escura mais escura e a tonalidade clara mais clara que a referência. O resultado pictórico é visualmente mais agradável.
Com as flores essa regra não deve ser aplicada, pois uma escala tonal mais estreita funciona melhor na pintura de pétalas.
Algo que deve ser ressaltado, é que ao se usar fotografia como referência, será obrigatório substituir a tonalidade da cor dessa referência pela tonalidade da cor do objeto natural. Fotografias sempre modificam a tonalidade da cor do objeto.
Agora vamos trabalhar na parte verde da flor. Será necessário acrescentar mais quatro cores na paleta, a saber: "preto", "amarelo de cádmio médio", "amarelo de cádmio claro" e branco de titânio.
Provavelmente você já ouviu falar que para se obter a cor verde é necessário misturar o azul com o amarelo.
Eu raramente uso a cor verde em tubos industrializados, preferindo obtê-la de misturas ora entre azul e amarelo, ora de misturas de preto e amarelo. O pigmento preto contém pigmento azul por contaminação, o que nos permite obter a cor verde quando da mistura com a cor amarela. Veja a distribuição das novas cores na paleta:
Nesse passo você deverá preparar as três tonalidade básicas de verde. As misturas são as seguintes:
  • Tom escuro;
    • preto + amarelo de cádmio médio (pouca quantidade)
  • Tom médio;
    • preto + amarelo de cádmio claro
  • Tom claro;
    • preto + amarelo de cádmio claro (mais do que no tom médio) + branco de titânio (pouquíssimo)
Use outros três pincéis.
Aplique as tonalidades de cor em mosaicos como feito com o botão de flor. Ajuste a forma do desenho e por fim aplique a técnica de transição de tonalidades como já explicado acima.
Repita aqui o processo do pincel umedecido em terebintina para corrigir eventuais falhas de formato e melhorar o acabamento do trabalho. Mantenha o pincel limpo para não sujar outras partes da pintura.
Na imagem ao lado vê-se o aspecto final da pintura do botão de flor.

Palavras finais.

A pintura a óleo é um assunto vasto sendo necessário abordar outros temas tais como:
  • diversas camadas de pintura;
  • veladuras;
  • cores primárias, secundárias e terciárias;
  • mistura de tintas ou preparo de cores;
  • preparação da tela ou outra base para pintura;
  • temas para pintura;
  • e muitos outros assuntos pertinentes.

Portanto, são necessárias muitas outras lições para o domínio adequado da técnica da pintura a óleo.
Concluindo o trabalho, aplique uma camada de tinta para o fundo. Use uma mistura de cores que se contraponha a cor principal do objeto.